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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Complexo de inferioridade



Pergunta da leitora Sarah Santos: "Por que algumas pessoas aceitam a tristeza, ficam prisioneiras de seus complexos de inferioridade e não lutam contra seus medos para terem mais orgulho de si mesmas?"
Por Eugenio Mussak

Realmente, ninguém consideraria Paul um garoto atraente. Era gordo, desajeitado, com dentes tortos e um permanente semblante de quem não tem a menor idéia do que está fazendo neste mundo. Por tudo isso e por sua condição social, o jovem Paul não tinha motivos para achar que um dia seria um sucesso na vida. Filho de um motorista e de uma caixa de supermercado na cidade provinciana de Bristol, na Inglaterra, dedicou-se a trabalhos comuns, como estoquista e vendedor de celulares.

Na escola, a crueldade dos adolescentes com os colegas menos abençoados pela natureza jogou a última pá de cal em cima da autoestima do garoto. Foi na solidão de sua inferioridade que Paul encontrou uma companhia: o canto. Ele cantava desde pequeno, geralmente quando estava só, e era esse seu momento preferido. E era apenas isto que ele achava que seria por toda sua vida: um cantor de chuveiro. Por sorte, o destino tem lá seus caprichos, e às vezes gosta de dar um empurrãozinho em quem está com medo de saltar alguns obstáculos da vida. Em 2000, Paul ganhou um pequeno prêmio em um concurso de perguntas e respostas, juntou a esse dinheiro algumas economias e cometeu uma ousadia inesperada: cruzou o canal da Mancha em direção à Itália, com a intenção de assistir a uma apresentação de Pavarotti e estudar a língua de seu ídolo. Foi então que começou a pensar que poderia sonhar em ser um cantor de ópera. Mas como? Como enfrentar as dificuldades de uma carreira tão difícil e, muito pior, como vencer seu próprio sentimento de rejeição?

Como desgraça pouca é bobagem, logo depois Paul entrou em um período de problemas de saúde. Teve apendicite supurada, recebeu o diagnóstico de um tumor na glândula supra-renal felizmente resolvidos com cirurgias e ainda sofreu um acidente de moto que quebrou sua clavícula. Mas, passado esse período negro, Paul, já com 37 anos, juntou forças insuspeitas, parou por um instante de olhar no espelho da inferioridade e cometeu mais uma ousadia. Inscreveu-se no concurso Britains Got Talents, uma espécie de Ídolos da TV inglesa. Foi nesse dia que o destino lhe sorriu.

Como todos os concursos de calouros, esse também é cruel. A maioria dos candidatos diverte o público, não por seu potencial artístico, mas pelo papel ridículo que estão dispostos a fazer em nome de um sonho que dificilmente será realizado. Os jurados sabem disso, e cumprem bem sua missão de parecerem seres superiores dispostos a dar uma chance aos mortais comuns. Quando, vestindo um terno de 35 libras, Paul foi anunciado aos jurados Simon Cowell, Amanda Holden e Piers Morgan como um cantor de ópera, estes ensaiaram até um ar de descrença e enfado diante daquele desajeitado pretendente a divo.

O que eles não podiam imaginar era que estavam diante de um virtuose. Só se deram conta depois que ele abriu a boca e começou a cantar, controlando seu pavor. O que se seguiu não pode ser explicado por palavras. Vale a pena assistir à apresentação de Paul Potts, um homem que se considerava inferior porque não se encaixava nos padrões (veja o vídeo em www.youtube.com, procure por Paul Pott singing opera). No mínimo, é emocionante.

O medo da morte

Eu sei! Você deve estar pensando: Claro que ele venceu, afinal ele tem um talento especial. Sim, concordo, ele tem, mas vamos combinar duas coisas. A primeira é que aqui estamos falando sobre o complexo de inferioridade que ele também tinha, e que quase impediu que seu talento fosse revelado. A segunda é que todos nós temos algum talento.

Quem criou a expressão complexo de inferioridade foi o psicólogo austríaco Alfred Adler, que durante algum tempo trabalhou com Freud, mas, como ocorreu com vários seguidores do criador da psicanálise, incluindo Carl Jung, acabou por se afastar do mestre em função de algumas opiniões radicais deste. Adler criou uma linha terapêutica própria, chamada psicologia do desenvolvimento individual. Sua teoria é que as pessoas têm preocupação permanente em alcançar objetivos para obter afirmação social. O poder, a fama, a notoriedade e o reconhecimento público são os extremos dessa aceitação. O oposto é a inferioridade, a rejeição.

Trata-se de uma situação idealizada, uma imagem puramente mental, mas que tem reflexos na construção da personalidade e no comportamento humano. O mundo pode ser muito cruel e tem a triste mania, especialmente no Ocidente, de dividir a pessoas em vencedoras e perdedoras, a depender da distância a que elas se encontram dos padrões artificiais de sucesso. E o insucesso social é interpretado por nosso inconsciente da mesma maneira como interpretamos a morte, o maior de todos os nossos medos.

Adler teve, em sua infância, uma experiência que o marcou para sempre. Alguém lhe apontou um cemitério e o aterrorizou com a perspectiva da morte, que é assustadora porque é desconhecida. O menino então começou a construir um sentimento devastador de medo e, pior que isso, de inferioridade, porque ele se deu conta de que seus coleguinhas de escola passavam ao lado daquele muro sem se importarem com a proximidade de um campo de mortos. Ele achava, então, que só ele tinha medo e, portanto, ele devia ser inferior aos demais, pois tinha menos coragem. A ironia dessa história é que somente aos 35 anos ele descobriu que, na verdade, atrás daquele muro nunca houvera um cemitério. Por isso seus colegas não temiam aquele lugar. Tinha sido uma cruel mentira.

A psicologia adleriana considera que nós podemos ter outras mortes, e não apenas a morte física. Podemos, por exemplo, sofrer, adoecer e até morrer emocionalmente. Sofremos especialmente quando não atendemos às expectativas daqueles que amamos ou respeitamos. E é aí que mora o perigo, pois na maioria das vezes essa expectativa é idealizada por nós mesmos, e não por aqueles a quem a atribuímos.

Somente a maturidade emocional nos dá condições de criar expectativas saudáveis a nosso próprio respeito e de lidar adequadamente com as expectativas dos outros. Quando nos defrontamos com expectativas superdimensionadas, acabamos por provocar uma profecia auto-realizável, que termina por criar um círculo vicioso. Você acredita que não vai conseguir atingir tal resultado porque não é suficientemente capaz. Por isso mesmo, não consegue, o que reforça sua opinião sobre seu valor. Ou desvalor.

A grande barreira

Não é só a costa nordeste da Austrália que tem uma grande barreira. Nossa mente também pode ter. O complexo de inferioridade pode ser uma barreira perigosa para a navegação dos sonhos, mas não tão bela como a formação de corais do oceano Índico. O complexo de inferioridade pode se manifestar de algumas formas. Uma delas é a anulação da personalidade. A pessoa fecha suas possibilidades na gaveta da inferioridade, joga a chave fora e passa o resto da vida culpando o mundo por sua infelicidade. A outra é o impulso de agressão, em que surge uma atitude hostil e desdenhosa do resto do mundo. Adler criou o conceito do protesto masculino, que não é uma exclusividade dos homens, apenas recebeu esse nome porque o exercício do poder foi, historicamente, reservado a estes. O protesto masculino é uma luta interior para combater a dependência emocional, construir autonomia e obter a sonhada superioridade.

Trata-se, portanto, de uma energia positiva, que, se bem canalizada, leva a pessoa a transpor sua grande barreira. O único problema é que às vezes faltam objetivos claros e pensamento estruturado o suficiente para essa transposição. A luta pela superioridade pode provocar a construção de uma realidade alternativa, fantasias de heroísmo, atitudes agressivas, arrogância compensatória. Está na hora da terapia, acredite.

A quem está acometido pelo complexo de inferioridade eu recomendo, sim, terapia; mas, correndo o risco de parecer superfi cial, eu me atrevo a perguntar: afinal, que critério você está usando? O que significa mesmo a palavra sucesso? Não seria, por acaso, aquele sentimento gostoso de viver em paz com sua própria identidade, jogando na lata de lixo os estereótipos criados pelo glamour fictício das celebridades? Que tal rever sua escala de valores?

Paul Potts fez isso. Considerou que tinha um valor maior que sua simples figura. Colocou em xeque a opinião dos outros, inclusive da mídia, que insiste em relacionar sucesso artístico a beleza física. Já gravou CDs, apresentou-se para a rainha da Inglaterra e tem agenda cheia no cenário internacional do bel canto. Sim, o valor do belo é real, mas ele também é relativo. O belo só continua belo quando acompanhado do bom e do verdadeiro, diria Platão.

Aliás, Paul consagrou-se naquele programa de calouros cantando a ária Nessun dorma, de Giacomo Puccini, que começa dizendo: Que ninguém durma/ nem você, princesa/ olhe as estrelas e trema de amor e de esperança. E termina ordenando: Parta, ó noite/ esvaneçam, estrelas/ ao amanhecer eu vencerei/ Vencerei!
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Realmente, ninguém consideraria Paul um garoto atraente. Era gordo, desajeitado, com dentes tortos e um permanente semblante de quem não tem a menor idéia do que está fazendo neste mundo. Por tudo isso e por sua condição social, o jovem Paul não tinha motivos para achar que um dia seria um sucesso na vida. Filho de um motorista e de uma caixa de supermercado na cidade provinciana de Bristol, na Inglaterra, dedicou-se a trabalhos comuns, como estoquista e vendedor de celulares.

Na escola, a crueldade dos adolescentes com os colegas menos abençoados pela natureza jogou a última pá de cal em cima da autoestima do garoto. Foi na solidão de sua inferioridade que Paul encontrou uma companhia: o canto. Ele cantava desde pequeno, geralmente quando estava só, e era esse seu momento preferido. E era apenas isto que ele achava que seria por toda sua vida: um cantor de chuveiro. Por sorte, o destino tem lá seus caprichos, e às vezes gosta de dar um empurrãozinho em quem está com medo de saltar alguns obstáculos da vida. Em 2000, Paul ganhou um pequeno prêmio em um concurso de perguntas e respostas, juntou a esse dinheiro algumas economias e cometeu uma ousadia inesperada: cruzou o canal da Mancha em direção à Itália, com a intenção de assistir a uma apresentação de Pavarotti e estudar a língua de seu ídolo. Foi então que começou a pensar que poderia sonhar em ser um cantor de ópera. Mas como? Como enfrentar as dificuldades de uma carreira tão difícil e, muito pior, como vencer seu próprio sentimento de rejeição?

Como desgraça pouca é bobagem, logo depois Paul entrou em um período de problemas de saúde. Teve apendicite supurada, recebeu o diagnóstico de um tumor na glândula supra-renal felizmente resolvidos com cirurgias e ainda sofreu um acidente de moto que quebrou sua clavícula. Mas, passado esse período negro, Paul, já com 37 anos, juntou forças insuspeitas, parou por um instante de olhar no espelho da inferioridade e cometeu mais uma ousadia. Inscreveu-se no concurso Britains Got Talents, uma espécie de Ídolos da TV inglesa. Foi nesse dia que o destino lhe sorriu.

Como todos os concursos de calouros, esse também é cruel. A maioria dos candidatos diverte o público, não por seu potencial artístico, mas pelo papel ridículo que estão dispostos a fazer em nome de um sonho que dificilmente será realizado. Os jurados sabem disso, e cumprem bem sua missão de parecerem seres superiores dispostos a dar uma chance aos mortais comuns. Quando, vestindo um terno de 35 libras, Paul foi anunciado aos jurados Simon Cowell, Amanda Holden e Piers Morgan como um cantor de ópera, estes ensaiaram até um ar de descrença e enfado diante daquele desajeitado pretendente a divo.

O que eles não podiam imaginar era que estavam diante de um virtuose. Só se deram conta depois que ele abriu a boca e começou a cantar, controlando seu pavor. O que se seguiu não pode ser explicado por palavras. Vale a pena assistir à apresentação de Paul Potts, um homem que se considerava inferior porque não se encaixava nos padrões (veja o vídeo em www.youtube.com, procure por Paul Pott singing opera). No mínimo, é emocionante.

O medo da morte

Eu sei! Você deve estar pensando: Claro que ele venceu, afinal ele tem um talento especial. Sim, concordo, ele tem, mas vamos combinar duas coisas. A primeira é que aqui estamos falando sobre o complexo de inferioridade que ele também tinha, e que quase impediu que seu talento fosse revelado. A segunda é que todos nós temos algum talento.

Quem criou a expressão complexo de inferioridade foi o psicólogo austríaco Alfred Adler, que durante algum tempo trabalhou com Freud, mas, como ocorreu com vários seguidores do criador da psicanálise, incluindo Carl Jung, acabou por se afastar do mestre em função de algumas opiniões radicais deste. Adler criou uma linha terapêutica própria, chamada psicologia do desenvolvimento individual. Sua teoria é que as pessoas têm preocupação permanente em alcançar objetivos para obter afirmação social. O poder, a fama, a notoriedade e o reconhecimento público são os extremos dessa aceitação. O oposto é a inferioridade, a rejeição.

Trata-se de uma situação idealizada, uma imagem puramente mental, mas que tem reflexos na construção da personalidade e no comportamento humano. O mundo pode ser muito cruel e tem a triste mania, especialmente no Ocidente, de dividir a pessoas em vencedoras e perdedoras, a depender da distância a que elas se encontram dos padrões artificiais de sucesso. E o insucesso social é interpretado por nosso inconsciente da mesma maneira como interpretamos a morte, o maior de todos os nossos medos.

Adler teve, em sua infância, uma experiência que o marcou para sempre. Alguém lhe apontou um cemitério e o aterrorizou com a perspectiva da morte, que é assustadora porque é desconhecida. O menino então começou a construir um sentimento devastador de medo e, pior que isso, de inferioridade, porque ele se deu conta de que seus coleguinhas de escola passavam ao lado daquele muro sem se importarem com a proximidade de um campo de mortos. Ele achava, então, que só ele tinha medo e, portanto, ele devia ser inferior aos demais, pois tinha menos coragem. A ironia dessa história é que somente aos 35 anos ele descobriu que, na verdade, atrás daquele muro nunca houvera um cemitério. Por isso seus colegas não temiam aquele lugar. Tinha sido uma cruel mentira.

A psicologia adleriana considera que nós podemos ter outras mortes, e não apenas a morte física. Podemos, por exemplo, sofrer, adoecer e até morrer emocionalmente. Sofremos especialmente quando não atendemos às expectativas daqueles que amamos ou respeitamos. E é aí que mora o perigo, pois na maioria das vezes essa expectativa é idealizada por nós mesmos, e não por aqueles a quem a atribuímos.

Somente a maturidade emocional nos dá condições de criar expectativas saudáveis a nosso próprio respeito e de lidar adequadamente com as expectativas dos outros. Quando nos defrontamos com expectativas superdimensionadas, acabamos por provocar uma profecia auto-realizável, que termina por criar um círculo vicioso. Você acredita que não vai conseguir atingir tal resultado porque não é suficientemente capaz. Por isso mesmo, não consegue, o que reforça sua opinião sobre seu valor. Ou desvalor.

A grande barreira

Não é só a costa nordeste da Austrália que tem uma grande barreira. Nossa mente também pode ter. O complexo de inferioridade pode ser uma barreira perigosa para a navegação dos sonhos, mas não tão bela como a formação de corais do oceano Índico. O complexo de inferioridade pode se manifestar de algumas formas. Uma delas é a anulação da personalidade. A pessoa fecha suas possibilidades na gaveta da inferioridade, joga a chave fora e passa o resto da vida culpando o mundo por sua infelicidade. A outra é o impulso de agressão, em que surge uma atitude hostil e desdenhosa do resto do mundo. Adler criou o conceito do protesto masculino, que não é uma exclusividade dos homens, apenas recebeu esse nome porque o exercício do poder foi, historicamente, reservado a estes. O protesto masculino é uma luta interior para combater a dependência emocional, construir autonomia e obter a sonhada superioridade.

Trata-se, portanto, de uma energia positiva, que, se bem canalizada, leva a pessoa a transpor sua grande barreira. O único problema é que às vezes faltam objetivos claros e pensamento estruturado o suficiente para essa transposição. A luta pela superioridade pode provocar a construção de uma realidade alternativa, fantasias de heroísmo, atitudes agressivas, arrogância compensatória. Está na hora da terapia, acredite.

A quem está acometido pelo complexo de inferioridade eu recomendo, sim, terapia; mas, correndo o risco de parecer superfi cial, eu me atrevo a perguntar: afinal, que critério você está usando? O que significa mesmo a palavra sucesso? Não seria, por acaso, aquele sentimento gostoso de viver em paz com sua própria identidade, jogando na lata de lixo os estereótipos criados pelo glamour fictício das celebridades? Que tal rever sua escala de valores?

Paul Potts fez isso. Considerou que tinha um valor maior que sua simples figura. Colocou em xeque a opinião dos outros, inclusive da mídia, que insiste em relacionar sucesso artístico a beleza física. Já gravou CDs, apresentou-se para a rainha da Inglaterra e tem agenda cheia no cenário internacional do bel canto. Sim, o valor do belo é real, mas ele também é relativo. O belo só continua belo quando acompanhado do bom e do verdadeiro, diria Platão.

Aliás, Paul consagrou-se naquele programa de calouros cantando a ária Nessun dorma, de Giacomo Puccini, que começa dizendo: Que ninguém durma/ nem você, princesa/ olhe as estrelas e trema de amor e de esperança. E termina ordenando: Parta, ó noite/ esvaneçam, estrelas/ ao amanhecer eu vencerei/ Vencerei!
Fonte:www.vidasimples.com.br

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