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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Viciadas no amor

Viciadas no amor
Estranha forma de vida, essa que tantas vezes sentimos como nossa. Se tivesse um sabor, poderia ser agridoce. E se tivesse uma cor, talvez pudesse ser púrpura. Porém, é a ausência de cor que melhor define este estado de alma.
Clara Soares
(publicado em http://mulher.pt.msn.com/relacoesefamilia/)






Zélia é uma profissional de sucesso. Ultrapassada a barreira psicológica dos 40 anos, estaria realizada e feliz. Divorciada há 14 anos, só tem tido olhos para o namorado, que continua a viver sem ela e com outras relações pelo meio. Zélia foi alimentando a esperança de que um dia ele mudasse para ficar a seu lado, depois de tantas provas de dedicação e carinho. "Sou para ele a número um. O problema é que se farta das pessoas e está convencido de que uma relação estável não faz parte dos seus planos", diz.

Miguel, "uma pessoa bem colocada na vida, a nível académico e familiar", chegou, em tempos, a concordar em comprarem uma casa para ambos. Mas o projecto deixou-o numa tal angústia que acabou gorado. As esperanças ficaram mais abaladas quando Zélia soube por terceiros que a sua paixão acabara de ser pai de uma criança, fruto de um dos seus casos.


A princípio foi um choque, mas a sua capacidade de perdoar venceu. O que não esperava era que a mãe daquela criança voltasse a ficar grávida. Ainda tentou fazer orelhas moucas às pessoas amigas que viam nele um marialva incorrigível, chegou mesmo a iniciar um relacionamento com "uma pessoa honesta, espectacular", que lhe foi apresentada e com a qual saiu durante dois anos. Porém, terminou a relação por chegar à conclusão de que o amor de sempre não lhe saía da cabeça. "Estou sempre a condicionar a minha vida à disponibilidade dele e perdi a confiança, mas ainda não me mentalizei de que o problema é meu e que, mais cedo ou mais tarde, vou ter de desistir de nós", confessa, com amargura.Sem forças nem estabilidade emocional, Zélia apoia-se na medicação para a tensão arterial descontrolada, de origem nervosa, e toma diariamente ansiolíticos. Ficou internada alguns dias num hospital, tendo a única visita dele durado escassos minutos. Cansada de dar e de sofrer, equaciona pela primeira vez a possibilidade de sair deste filme, ainda que não saiba muito bem como.


"Fui uma mulher que amou demais quase toda a vida, até que o preço para a minha saúde física e mental passou a ser tão elevado que fui forçada a analisar rigorosamente o meu padrão de relacionamento com o sexo oposto." A confissão é da psicoterapeuta familiar Robin Norwood, autora de um best-seller, "Mulheres que Amam Demais" (Editora Sinais de Fogo)."Usamos os relacionamentos para afastar a dor", justifica Robin, "do mesmo modo que recorremos a substâncias que viciam, como as drogas e até o trabalho excessivo." Partindo da ideia, consensual entre psiquiatras e psicólogos, de que a incapacidade para viver relacionamentos sãos se alicerça em padrões de comunicação disfuncionais aprendidos na infância e ao longo da adolescência, a autora apresenta inúmeros casos que acompanhou durante a sua prática clínica. Têm em comum o facto de se fascinarem por pessoas que irradiam problemas e uma dependência da emoção, nomeadamente da emoção negativa.

Esta atracção por parceiros ausentes, negligentes, violentos (física ou psicologicamente) ou imaturos é praticamente inevitável, particularmente no caso de filhos adultos de pais alcoólicos, toxicodependentes ou com segredos e disfunções familiares. De forma inconsciente, acabam por envolver-se com pessoas muito parecidas com o pai ou a mãe com quem tiverem problemas ao longo do crescimento, perpetuando o tipo de comunicação que conhecem, na tentativa de resolver um conflito que lhes causou mágoa, dor ou raiva.

Neste sentido, defende a especialista californiana, o envolvimento com uma pessoa "normal" afigura-se insípido e monótono, porque lhe falta a intensidade dramática, a luta e a emoção da incerteza que geram, neste caso, a impressão de se estar vivo. Quanto maior for o sofrimento vivido em criança, mais forte será a tendência para o recriar e controlar na idade adulta. "Não existem coincidências nos relacionamentos nem acidentes no casamento", conclui Robin.

www.maxima.pt

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